Em sua juventude sofreu muito com seu pai, este, era
adepto dos métodos repressivos em matéria de educação,
que decidido a aniquilar o caráter revoltado e indomável
do jovem, e após inúmeros incidentes nos quais suas
personalidades se chocaram, resolveu interná-lo numa colônia
agrícola correcional, em Metray (Inpre et Loire).
Diante disso, Saint Yves ficou mais revoltado, mas esta
colônia era dirigida por Frederic Augusto de Metz, homem
inteligente, que conseguiu orientar o seu espírito e a
sua agressividade para a leitura e ensinou-lhe certos princípios
filosóficos, dentre os quais: "Tudo pela liberdade,
nada pelo constrangimento".
Um incidente entre Saint Yves e um professor, levou
seu pai a tomar novas medidas rigorosas, mas que não impediram
o jovem de ser aprovado no exame de bacharelado, menor de idade,
foi incorporado a força num regimento da infantaria da
marinha.
O Sr. Metz intervindo novamente, obteve licença
para Saint Yves estudar medicina naval na escola de Brest. Depois
deste episódio, Saint Yves ficou doente e foi libertado
aos 22 anos da sorte que lhe haviam destinado, podendo finalmente
optar pelo que lhe agradava.
De Metz sabendo da tendência literária
de seu aluno, orientava-o na escola em suas leituras, indicava-lhe:
Joseph de Maistre, Bonald e Fabre d´Olivet. Este último,
seduzia-o apesar de lhe apresentarem-no como "um espírito
extraviado, inimigo da fé cristã e adepto do paganismo".
Fabre d´Olivet propunha uma filosofia do mundo
com base no pitagorismo e na tradição iniciática.
Saint Yves, escrevia mais tarde: "A medida que me desinteressava
de Joseph de Maistre e de Bonald, gostava cada vez mais de ler
Fabre d´Olivet, devo confessar para minha vergonha, que essas
referências, em vez de me desencorajarem, despertaram em
mim o interesse por este autor. Um pagão religioso em pleno
século XIX, isso respondia às minhas curiosidades,
às minhas ânsias de liberdade e de análise".
A partir daí, passaria a maior parte de sua vida
a analisar e a ampliar a filosofia do seu primeiro mestre, tentando
integrá-la dentro de perspectivas mais cristãs. Seu desejo
era consagrar-se unicamente à uma reflexão profunda
acerca da história e do destino da humanidade.
Durante 4 anos, Saint Yves viveu em Jersey, local onde
estavam refugiados grande número de exilados políticos
do Segundo Império, nesse clima de exílio, conversou
com as pessoas mais diversas, todas elas preocupadas com o advento
de uma nova ordem política, encontrou por acaso um parente
de Fabre d´Olivet, que proporcionou-lhe a leitura de manuscritos
inéditos do mestre. Em seguida foi professor livre na Inglaterra.
Em 1872 Saint Yves regressa à Paris, a paz faz
com que regresse à vida civil, às suas meditações,
aos seus problemas, porque nem sempre tinha a subsistência
assegurada. Conseguiu trabalho de escriturário no Ministério
do Interior, o ordenado era pequeno mas não se importava
com isso.
Sua memória prodigiosa e o trabalho constante
permitiram-lhe armazenar uma considerável bagagem intelectual,
inútil na situação em que se encontrava no
momento mas que seria valiosa para os seus futuros trabalhos.
Os contatos que teve durante aqueles anos de pobreza proporcionaram-lhe
um enriquecimento espiritual.
Tornou-se freqüentador do salão do bibliotecário
Jacob Lacroix e do irmão deste, Jules Lacroix, na Biblioteca
do Arsenal, nessa época não publicou nenhuma obra
importante, suas dificuldades financeiras prejudicavam o desenvolvimento
e o brilho do seu intelecto.
Tinha concepções ainda muito negativas,
a sua visão pessimista do mundo, fizeram-no pensar, a certo
tempo, tornar-se frade trapista.
As poucas obras que escreveu nesta época, não
apresentavam interesse, eram sobretudo versos: "Heures",
"Les clés de l´orient", "Le testament
Iyrique" e outras.
Porém, a fortuna apareceu-lhe na pessoa de uma
mulher bela, inteligente e rica: a condessa Marie Keller, que
foi-lhe apresentada nos salões da Biblioteca do Arsenal
e que em breve desposaria. Ela era viúva do conde Keller,
pertencia à alta sociedade, diziam que era aparentada com
as mais nobres famílias, sua mãe, também
condessa, era irmã da Sra. Hauska, que era confidente e
mais tarde esposa da Balzac.
Essa união foi o casamento de duas inteligências
e abriu a Saint Yves, novas perspectivas, sobretudo porque a condessa
Keller, receando a desigualdade de condições sociais,
conseguiu que o Papa lhe concedesse o título de Marquês
de Alveydre em 1880.
O Marquês Saint Yves finalmente iria realizar
os seus sonhos, a fortuna da mulher e o brilhante círculo
de relações de ambos, permitiram-lhe encarar o futuro
com otimismo, as condições favoráveis de
trabalho fizeram o resto, Saint Yves instalou-se num luxuoso hotel
particular da rua Vernet, em Paris.
Iniciando a sua jornada literária, quis mostrar
às populações bretanhas, que o mar era uma
fonte de riquezas agrícolas, industriais e comerciais,
desenvolvendo a indústria das algas marinhas, descobriu
mais de 30 aplicações das plantas marinhas.
Em 1882 escreveu : "Missão dos Soberanos"
e "Missão dos Operários". Na "Missão
dos Soberanos" apresenta de forma inédita, seus conceitos
sociológicos através da sua idéia de Sinarquismo.
Esta Missão era dedicada à história da era
cristã, pretendia mostrar os defeitos da usurpação
do temporal pelo espiritual. Aos olhos de Saint Yves, a vontade
popular traduz apenas os sentimentos, as reações
instintivas da massa social.
Em oposição a isto, a Autoridade, semelhante
à consciência humana, faz eco dos princípios
eternos da razão: sugere mas não obriga.
Finalmente o poder é aquilo que os romanos chamavam
o Imperium, isto é, a balança da justiça
e do gládio que fere. O poder não deve ser confundido
com Autoridade, que é só espiritual e não
material.
Saint Yves propõe a forma ideal de governo a
que ele chama: Sinárquico, de harmonia com os princípios
eternos, pretende substituir a oposição do Poder
e da Autoridade, pela síntese dos dois. Para acabar com
o estado em que se encontra a Europa, que considerava uma Anarquia,
propõe a Sinarquia: "Há que se constituir acima
das nossas nações, dos nossos governos, qualquer
que seja a forma; um governo geral, puramente científico,
emanado das nossas próprias nações, que consagre
tudo o que constitui a sua vida interior.
Curiosamente, a "Missão dos Soberanos"
apresentava-se como uma obra anônima, a crítica virulenta
do papado, a feroz análise do reino de Napoleão
fizeram com que a obra fosse atribuída aos soberanos protestantes
da Europa do Norte, julgaram-na até da autoria do rei da
Suécia.
A "Missão dos Operários", publicada
quase ao mesmo tempo vinha assinada por Saint Yves, o que esclareceu
os especuladores, esta nova Missão teve um sucesso imediato
e foi editada quatro vezes, ainda hoje pode ser lida com interesse.
Em suas críticas, denuncia o Estado enquanto
oligarquia incompetente em matéria econômica e simultaneamente
é despótico e impotente, achava que a política
da época não era uma ciência e sim um empirismo
colocado simplesmente a serviço dos próprios interesses
dos políticos.
Para combater isto, preconizava a solução sinárquica
através de conselhos e câmaras ternárias.
A "Missão dos Judeus" publicada em
1884 é considerada obra-prima de Saint Yves, nela ele exibe
maior erudição, ela põe em evidência
aquilo que levou a usurpação da autoridade pelo
Poder, isto é, o Cesarismo. Dedicou-se aos sábios
talmudistas, aos cabalistas e aos essenianos.
Nesta Missão, trata do período da Antigüidade
até a dispersão dos judeus no século II
da nossa era, também faz incursões na história
moderna e considerações de ordem geral, constatando
e explicando historicamente o divórcio da autoridade e
do poder, conclui como era de esperar, com o advento da sinarquia,
vinte vezes tentado, sempre traído, mas impondo-se finalmente.
Nesta obra Saint Yves quis abarcar tudo: explica os
mistérios das quatro ordens da ciência: fisiognomia,
cosmogonia, androgonia e teogonia, defende a teoria de que os
antigos já possuíam os conhecimentos que temos hoje:
eletricidade, fotografia, ótica, mineralogia, química,
magnetismo, telegrafia, fisiologia, astronomia e outras, disserta
sobre a diversidade das raças humanas, dos druidas, do
ciclo de Ram, de Moisés, Zaratustra, Faraó Amon,
Jesus, Nabucodonosor, das instituições do império
Romano e até da Ordem dos Templários, que julgava
ser um dos únicos centros cristãos que se dedicou
a uma reflexão profunda sobre a organização
do mundo.
Termina, confiando aos judeus a missão de operar um renascimento que conduza à instauração definitiva da Sinarquia.
Esta obra volumosa é a melhor exposição
da sinarquia histórica, assinala também a passagem
de Saint Yves para o iluminismo, o que será concretizado
nas suas obras seguintes. A "Missão dos Judeus"
falava também do Oriente e do Extremo Oriente, da China,
da India, do Japão e essencialmente de territórios
referidos na Bíblia.
"La France Vraie", escrita em 1887, em 22
volumes, eram baseados nos arcanos maiores do tarot, que completaram
a sua teoria, ele foi também um continuador de Fabre d´Olivet,
rescrevendo como ele, a história humana a partir dos mitos
e das etimologias.
Tendo conhecido em 1887, um sábio indiano, o
príncipe Hardjij Scharriff, de Bombaim, que foi à
Paris para visitar Saint Yves, nada se sabe acerca desse misterioso
personagem além daquilo que conta Saint Yves, segundo este,
o príncipe fora mandado pelo governo mundial oculto e tinha
por missão revelar-lhe a existência de um mundo desconhecido:
Agarta, que seria uma cidade iniciática subterrânea
onde estaria a Igreja primitiva conservada e um centro científico
moderno e de todas as ciências espirituais, uma vez que
lá estariam armazenados há séculos, todos
os conhecimentos. Sua situação geográfica
era um segredo que Saint Yves não revela, talvez fosse
uma alegoria ou simbolismo.
Após este acontecimento, Saint Yves iniciou no
mesmo ano, a redação da sua "Missão
da Índia na Europa", que tinha a seguinte dedicatória:
"Ao Soberano Pontífice que ostenta a tiara de sete
coroas, ao Brâhatmah atual".
Também escreveu em 1907: "Teogonia dos Patriarcas",
"Missão da Europa na Ásia", "A Questão
do Mahatma e a sua solução", através
delas divulgava as revelações que lhe fizera o príncipe
indiano, o qual, depois de sua viagem à Europa se tornou
um Brâhatmah.
Na "Missão da Índia", pede ao
Agarta que se revele, é também de caráter
profético, ele diz nela aos europeus: "Se não
realizardes a Sinarquia, vejo a vossa civilização
judaico-cristã eclipsada dentro de um século, a
vossa supremacia brutal para sempre aniquilada por um renascimento
incrível da Ásia inteira, ressuscitada, de pé,
sábia e armada dos pés a cabeça". Esclarece
ainda que esta Ásia a quem não soubermos dar a mão,
teria projetos de justiça e cumpriria sem nós, contra
a nossa vontade, as promessas sociais dos Abrâmidas, de
Moisés, de Cristo e de todos os cabalistas cristãos.
O remédio que ele propunha era a Sinarquia, lei histórica
da humanidade e já demostrada nas Missões precedentes.
Saint Yves, no seu epílogo, confessa que talvez
o tomem por louco ou mistificador, mas para além da letra,
esses textos encerram uma mensagem que veio a ser confirmada em
muitos pontos, escrita que foi há mais de 100 anos.
Ignora-se porque Saint Yves mandou destruir a sua "Missão
na Índia", logo após sua publicação,
apresentou como justificativa o fato de as autoridades superiores
lhe haverem ordenado que não divulgasse certos segredos,
por serem muito perigosos. Porém, escapou um exemplar que
ficou com Alexandre Keller, um filho do primeiro casamento da
condessa Keller, logo após a morte de Saint Yves, esse
exemplar foi entregue ao editor Dorbon Ainé, que em 1910
publicou-a novamente.
Contudo, durante a ocupação alemã
na França, na Segunda Guerra Mundial, os nazistas mandaram
procurar todos os exemplares e os destruíram, isto foi
incompreensível, uma vez que a obra não era ameaça
para ninguém...
No fim de sua vida, Saint Yves passou novamente por
dificuldades financeiras, não soube gerir a fortuna da
mulher. Em 1893 viu-se obrigado a trocar o Palacete da Rue Vernet
por uma casa mais modesta em Versalhes. Pouco tempo depois, enviuvou,
transformando o quarto da mulher, numa câmara ardente, onde
ia constantemente comunicar-se com sua alma.
Um de seus discípulos, Barlet, escreveu: "Este
gênero de comunicação nada tinha em comum
com o espiritismo, o qual sempre condenou suas práticas
através das suas doutrinas. Ele não tinha nenhuma
faculdade mediúnica e não se servia de nenhum médium;
as suas cerimônias, bastante sagradas, eram de um mundo
completamente diferente".
Esses atos, suas experiências de desdobramento
faziam parte de um saber secreto que Saint Yves nunca quis divulgar,
ele afirmava: "Se publicasse tudo aquilo que sei, integralmente,
metade dos habitantes de Paris ficariam loucos, a outra metade
histérica.
Foi a alma de sua mulher, durante seus contatos, que
lhe inspirou a idéia do "Arqueômetro",
o instrumento de precisão das altas ciências e das
artes correspondentes, o seu transferidor cosmométrico,
a sua bitola cosmológica, o seu regulador e o seu revelador
homológico.
O "Arqueômetro" devia assegurar a arquitecnia,
síntese das possibilidades religiosas, científicas
e estéticas do homem.
Este instrumento é um círculo dividido
em zonas concêntricas e em triângulos, onde letras
do hebraico, do sânscrito e do Vattan, números, notas
musicais, cores, sinais astrológicos; formavam combinações
que permitiam aos músicos, pintores, arquitetos, poetas,
fazerem criações exprimindo o ideal perfeito da
humanidade.
Nele Saint Yves explicou a forma de realizar a estrutura
musical de uma catedral ou a arquitetura falante de um canto.
Esta obra que o consagrou era precedida de uma androgonia, a história
da formação do homem e foi publicada em 1911.
Saint Yves obteve a patente de invenção
do Arqueômetro em 26 de junho de 1903.
Após sua morte em 1909, foi enterrado perto do
túmulo de sua mulher, em Versalhes, num túmulo construído
através do Arqueômetro. Barlet, então o Grão
Mestre da Rosa Cruz Cabalista, disse: "Saint Yves estará
sempre conosco para nos inspirar e nos guiar, acrescentando: não
se trata de uma alusão aos procedimentos espíritas
de comunicação com as almas dos mortos, mas de uma
presença mental. Tenho os motivos mais sérios e
o dever de afirmar que a alma de Saint Yves repousa em paz numa
região inacessível à nós, e que toda
evocação desta alma, verdadeira profanação
segundo as suas próprias teorias, teria sobretudo, o efeito
de perturbar perigosamente a do evocador".
Saint Yves deixou também, algumas obras sem valor
histórico: "Odes", obra em versos, um "Poema
da Rainha", uma "Epopéia Russa", sobre o
"Imperador Alexandre III", uma "Joana d´Arc
vitoriosa" e outras.
Foi fundador, em Paris, do Instituto Internacional de
Altos Estudos; Papus o considerava o seu mestre intelectual, tanto
que em sua homenagem, fundou a "Sociedade dos Amigos de Saint
Yves".